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Do virtual para o real

Algumas histórias de casais que se conheceram na internet e hoje ainda estão junto

Flores. Jantares. Conhecer a família. Sexo depois do terceiro encontro. Esses comportamentos descrevem como nossos avós, ou talvez bisavós, paqueravam e conquistavam seus parceiros, há mais de cinquenta anos. Naquela época, vivia-se em uma sociedade careta e desinformada, onde o gosto pelo sexo e o próprio sexo como forma de prazer, eram práticas condenáveis. Entretanto, atualmente, esse panorama vem mudando com grande rapidez devido à evolução tecnológica e à aceitação do sexo como forma de prazer e bem-estar.

Com a chegada dos computadores e da internet e, por consequência, a invenção das redes sociais e salas de bate-papo, qualquer contato entre duas pessoas pode ser intermediado sem nem mesmo sair de casa. Fazer amizade com aquela pessoa que gosta da mesma banda de rock que você, mas mora em outra cidade, ou então conhecer um grupo que pratique vôlei todo domingo no bairro vizinho; tudo isso a internet disponibiliza para seus usuários.

Além disso, para os mais tímidos ou os que procuram outra forma de contato aquém à amizade, essas ferramentas podem ser muito úteis. O surgimento expansivo das redes sociais, bate-papos, diversos sites especializados em paquera e relacionamento, deixou a tarefa árdua e criteriosa, antes digna somente dos menos tímidos, nas mãos de todos que souberem utilizar essa poderosa ferramenta.

Cláudia e Marcelo, Sofia e Juliana, Carla e Ana. Esses casais (e muitos outros espalhados pelo Brasil e mundo) tem algo em comum; todos eles se conheceram através da internet.

As histórias

Cláudia Lopes, curitibana e advogada, contava com 30 anos quando conheceu Marcelo Pires, paulista de 31, homem por quem se apaixonaria e viria a casar, mudando-se para São Paulo logo depois. Conheceram-se através da findada rede social Orkut, “entrei na minha página um dia e tinha o pedido de amizade dele. Achei-o um cara atraente, e além do mais, tínhamos alguns amigos do grupo de moto de meus pais em comum.”, conta ela.

Passaram a conversar todos os dias, fosse através do MSN ou do Orkut. A primeira coisa que Cláudia fazia ao chegar em casa do serviço era ligar o computador, ver se tinha alguma mensagem dele direcionada para ela. Apesar de todo o encanto que foi surgindo, a advogada ainda considerava ser somente amizade, afinal, Marcelo era um cara casado.

“Com o passar das conversas, ele me contou que estava apaixonado por mim e que queria me encontrar. Não acreditei de início, pois o que tem de homem casado que inventa a desculpa de um mau relacionamento a fim de dar uma escapada.”, confessa Cláudia. Ela deixou claro que não iria se relacionar com um homem casado e que só conversaria com ele após o divórcio.

Uma semana depois, Marcelo chegou com a novidade: estava se separando. Foram dois meses entre conversas pela internet até se conhecerem pessoalmente. Ele veio para Curitiba vê-la e depois de 14 encontros, resolveram morar juntos para encurtar toda a distância de estados.

Para Cláudia havia muitas expectativas em relação ao conversar de frente, tocar, beijar, porém, o medo também era grande. “Eu tinha medo dele não ser uma boa pessoa, medo do cheiro, do beijo ou dos corpos não baterem. Medo de ter perdido tempo.”.

A advogada relembra que os amigos a achavam louca. Não entendiam como ela poderia passar as noites de sábado na frente do computador conversando com uma pessoa que nem conhecia, estar apaixonada por alguém que morava em outro estado e nunca tinha visto na vida.

Hoje, Cláudia e Marcelo estão casados e já faz sete anos. A advogada se mudou para São Paulo e lá passou a trabalhar como consultora, além de dar cursos Brasil a dentro. Ainda não tiveram filhos (Cláudia já tinha um do primeiro casamento), somente alguns adotados caninos, e vivem felizes, apesar das brigas costumeiras de todo casal.

Sofia e Juliana vivem o amor virtualSofia e Juliana tiveram praticamente a mesma história. Também eram de estados diferentes e, coincidentemente, a primeira de Curitiba e a segunda de São Paulo.

Quando tinha 14 anos, Sofia começou a se questionar acerca de sua sexualidade. Estava confusa, cheia de dúvidas que todo adolescente passa, e para cessar essa confusão, passou a escrever em um blog a fim de, quem sabe, encontrar algumas respostas. Com o tempo, passou a ter contato com outras meninas que tinham as mesmas dúvidas, os mesmos questionamentos, e nesse mesmo ambiente, acabou conhecendo Juliana.

Apesar de não ser lésbica, Ju (como chama carinhosamente Sofia), acabou se apaixonando pela curitibana de uma forma inexplicável. “Ela se apaixonou por minhas palavras, afinal, nem foto tinha visto minha. Por isso foi um encantamento diferente, não tinha contato físico ou qualquer interesse estético”, conta a Designer de 26 anos.

Conversaram diariamente, apesar do alto custo do acesso à internet na época em que começaram a manter contato. Ju comprou uma webcan para aproximarem-se o máximo possível. Algum tempo depois, a paulista veio visitar Curitiba, mesmo com todas as dificuldades e sem ninguém entender o desespero da menina de querer vir à capital paranaense.

Segundo Sofia, o romance foi um pouco complicado. “Não tínhamos onde ficar, como nos vermos, contas de telefone altíssimas, computadores divididos com os irmãos, uma verdadeira batalha diária. Mandávamos cartas via correio, presentes; era delicioso e perturbador tudo isso.”

As meninas haviam construído um amor tão grande virtualmente que o maior medo era não ter a mesma força quando viesse para a vida real. Isso de fato aconteceu nos primeiros encontros, “online ela (Ju) conversava muito comigo, mas quando nos encontrávamos pessoalmente, emudecia. A certeza e segurança do virtual nem sempre adquire espaço no real.”, desabafa Sofia.

Hoje já faz dez anos que estão juntas, entre vindas e idas, dignas de todo casal. Não moram juntas ainda, mas de acordo com Sofia, já pensam em casar, porém, só não o fizeram por conta dos respectivos estudos e empregos.

É amor real, mesmo que virtual

A ausência de contato físico é uma das principais dificuldades enfrentadas por casais que começam seus relacionamento pela internet. Sofia afirma que nesse tipo de namoro, a conquista se dá pelas palavras, por um conteúdo que precisa vir com força para a superfície. “A internet também possibilita falar muitas coisas que, por vergonha ou medo, jamais falaríamos pessoalmente.”

Para Ana, 25, a maior dificuldade é trazer para o real toda a intimidade criada virtualmente, é continuar na mesma sintonia. A professora também conheceu Carla, sua namorada, pela internet, através de um grupo fechado no Facebook.

Carla relata que teve medo de se encontrar e não ser nada daquilo que viviam pela internet, das conversas não fluírem ou de, de repente, não haver interesse em continuar. “Ainda bem que isso nunca aconteceu, muito pelo contrário, se eu pudesse vê-la todos os dias ou em vários momentos do dia, eu veria.”, se declara a jornalista.

Além do mais, a internet pode realmente ajudar de várias formas, uma delas é o caso de pessoas mais tímidas. Para Carla, esse contato preliminar pode contribuir para quebrar o gelo na hora do tão esperado encontro. Já Ana afirma que, por conta do meio eletrônico, a pessoa já pode encontrar outra que tenha interesses em comum.

Sofia exalta que outro ponto preponderante para o uso da internet é a facilidade de se conectar e desconectar com um click, coisa que no munda real não é tão simples. “Não quer mais? Desconecta e segue a rotina. É um mundo paralelo, frágil.”

Nesse tipo de relacionamento, há também o medo da pessoa do outro lado não ser exatamente a que se espera. Sabe-se de diversos crimes que já aconteceram com pessoas que decidiram se encontrar depois de alguns dias conversando pela internet. É perigoso, mas inevitável. O necessário é cuidar com as informações que são passadas, sempre levando em conta que a pessoa pode não ser quem se espera.

“Para evitar algum problema, é melhor se encontrar em lugares não muito reservados, tentar obter informações sobre a pessoa, informar amigos sobre o relacionamento, não passar endereço, se proteger. Afinal, toda cautela é válida.”, são as dicas de Sofia.

Cláudia também afirma que é necessário dar um pesquisada sempre, contatar amigos e, principalmente, manter os pés no chão.